QUANDO A PRISÃO FOI À ÓPERA

MARIA MANUEL LEITÃO MARQUES
EURODEPUTADA S&D

Há momentos que ficam para sempre gravados na nossa história de vida. Nem sempre são os nossos momentos de glória, mas os feitos dos outros que nos impressionam. Eu recordo o dia em que fui à ópera no auditório da Gulbenkian para ouvir jovens improváveis a cantar Mozart, um projeto do Estabelecimento Prisional de Leiria para inclusão social de reclusos através da encenação de uma ópera, em conjunto com os guardas prisionais, familiares e amigos. No final, permitiram-me passar pelos bastidores para agradecer aos atores.

Não foi este o único projeto de inovação social que guardo na minha memória. Há muitos outros, como o Cantinho de Estudo, em Gaia (uma parede pintada, uma cadeira, uma secretária para crianças que o não têm em casa), o Speak que facilita a integração de migrantes e refugiados, a Rádio Miúdos, a casa que o Just a Change recuperou em Campanhã, a Lota Digital que aproxima os pequenos e médios armadores do consumidor final, a Avó Veio Trabalhar para o envelhecimento ativo, o Ekui para a aprendizagem inclusiva, o JN Todos para cidadania, o Centro de Apoio à Saúde Oral para que todos possamos sorrir com confiança.

Conheço pelo nome muitos dos empreendedores sociais que trabalham com pouco dinheiro, mas muitos sonhos, menos em busca do lucro e mais do impacto.

São hoje já 581 os projetos de inovação social financiados em todo o território e cobrem áreas muito diversas, desde o emprego às competências digitais, da cidadania ao ambiente e à saúde.

O ecossistema de inovação social vai muito além destes projetos. Compreende ainda 24 incubadoras e conta com o apoio de muitas outras instituições, Fundações (a Fundação Calouste Gulbenkian foi a primeira de várias) misericórdias (a Santa Casa de Lisboa, com a sua Casa do Impacto), cooperativas, instituições do ensino superior, municípios (com destaque para a Área Metropolitana do Porto), associações e empresas, que se associam como empreendedoras e como investidoras.

A iniciativa Portugal Inovação Social – pioneira na dinamização de um ecossistema nacional com recurso a Fundos Europeus – foi o que permitiu desenvolvê-lo, mobilizando recursos públicos e privados, e empreendedores capazes de propor e desenvolver novas respostas, que mais tarde possam ser adotadas como políticas públicas. A aprovação recente pela Comissão Europeia de um projeto para criação de um Centro Nacional de Competências para a Inovação Social é um reforço importante desta iniciativa.

Obviamente, todo este trabalho não dispensa nem substitui intervenções de largo espectro, como o complemento solidário para idosos ou o programa InCode para as competências digitais. Mas permite detetar problemas intersticiais, experimentar e replicar novas soluções, associar outros parceiros.

Como vimos durante a pandemia, é preciso inovação para responder aos velhos problemas que se tornaram visíveis e aos novos que emergiram destas circunstâncias. Os desafios sociais que decorrem da transição digital ambiental, para além dos outros que já tínhamos, como as persistentes desigualdades, exigem igualmente muito mais criatividade nas iniciativas e nos métodos para que ninguém fique para trás.

A inovação social é, por isso, uma peça indispensável no plano de ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais. Vejo com orgulho que Portugal foi pioneiro e que hoje é reconhecido na UE como um exemplo a seguir. Espero que assim continue e desejo o melhor aos nossos inovadores sociais.

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